Projeto fluvial retoma legado missionário das Luzeiros e leva cuidado integral às comunidades da Amazônia

O barco Estrela da Manhã, denominado XXXIII, amplia o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas e marca nova etapa do cuidado em Barcarena

Por Laina Sagica

20 de maio de 2026

A embarcação hospitalar Estrela da Manhã ancorada no Complexo Comercial de Barcarena marca uma nova fase da assistência em saúde na região. (Foto: ASCOM/HABA)

O acesso à saúde ainda é um desafio para milhares de moradores de comunidades ribeirinhas da Amazônia. Em localidades cercadas por rios e distantes dos centros urbanos, o atendimento médico depende de longas viagens, horas de espera e custos que muitas famílias têm dificuldade de suportar.

É nesse contexto que Barcarena, município da Região Metropolitana de Belém e um dos principais polos industriais do Pará, passa a escrever um novo capítulo na assistência em saúde. A cidade, marcada pelo crescimento econômico e pela presença de comunidades ribeirinhas em seu entorno, agora recebe o projeto fluvial Estrela da Manhã — iniciativa que aproxima o cuidado de populações que historicamente enfrentam barreiras geográficas, sociais e estruturais para conseguir atendimento especializado.

Morador da Ilha das Onças, seu José Prata aguarda a travessia no Porto do Complexo Comercial de Barcarena ao lado da filha, Aires, e do neto de 1 ano e 7 meses. (Foto: ASCOM/HABA)

É dessa realidade que nasce a história de quem vive às margens dos rios.

Na Ilha das Onças, o dia começa cedo para quem precisa de atendimento de saúde. Por ali, o caminho quase nunca é simples.

Aos 76 anos, José dos Santos Prata conhece bem essa rotina. Morador da ilha, ele atravessa o rio sempre que precisa de cuidado. Depois de um acidente que o deixou três anos hospitalizado, as viagens até Belém se tornaram mais frequentes — e mais difíceis.

“Se tivesse um atendimento mais perto, ajudaria. Facilitaria bastante.”

A travessia até a capital leva de 40 a 50 minutos. Até Barcarena, pode passar de uma hora. Mas o desafio não termina na chegada.

“A gente chega às sete da manhã… o atendimento começa nove, dez horas. Quando volta pra casa, já é tarde.”

Contexto e desafios de acesso à saúde

Na mesma casa, a realidade se repete. A filha, Ariane, enfrentou dificuldades até no pré-natal.

“Pra fazer exame, a gente sai da ilha, volta depois de uma semana pra buscar. Tem custo. É difícil.”

Histórias como essas revelam uma realidade comum na Amazônia: distância, espera e dificuldade de acesso à saúde.

É nesse cenário que surge o projeto fluvial Estrela da Manhã.

A embarcação, denominada Luzeiro XXXIII, dá continuidade a um trabalho iniciado na região na década de 1930, quando a primeira lancha missionária levou atendimento médico a comunidades isoladas.

O projeto é desenvolvido pelo Hospital Adventista Belém em parceria com o Instituto Camila, com apoio da Igreja Adventista no Norte do Brasil, da Prefeitura de Barcarena e da Adventist Health Brasil.

Em um gesto simbólico que marca novos começos, da esquerda para a direita, o diretor-geral dos hospitais adventistas de Belém e Barcarena, Ilvo Coutinho; o presidente da União Norte Brasileira Adventista, Pr. André Dantas; o presidente da Adventist Health Brasil, Gilnei de Abreu; o prefeito de Barcarena, Renato Ogawa; o vice-almirante do 4º Distrito Naval da Marinha do Brasil, Batista; e o vice-presidente do Instituto Camila, Benedito Pantoja, realizam o tradicional ato de quebra da garrafa durante a inauguração do barco-hospital Estrela da Manhã. (Foto: ASCOM/HABA)

Para o presidente da Adventist Health Brasil, Gilnei de Abreu, a iniciativa representa mais do que uma ação assistencial.

“O Estrela da Manhã é fruto de uma parceria construída com propósito e compromisso social. A embarcação foi doada pelo Instituto Camila e passa a integrar as ações de saúde e assistência desenvolvidas pela Adventist Health, por meio do Hospital Adventista Belém. Nosso objetivo é colocar essa estrutura a serviço das comunidades ribeirinhas, apoiando atendimentos, missões e voluntários que desejam cuidar de quem mais precisa.”

O Instituto Camila, responsável pela doação da embarcação, também reforça esse compromisso.

“Queremos que esse trabalho não se perca. As comunidades ribeirinhas ainda enfrentam muitas dificuldades de acesso à saúde”, afirma Benedito Pantoja.

 

Ampliação do acesso à assistência em saúde

Equipamentos instalados na embarcação permitirão a realização de exames e atendimentos com suporte tecnológico, ampliando a capacidade de diagnóstico e acompanhamento dos pacientes. (Foto: ASCOM/HABA)

Mais do que encurtar distâncias, o Estrela da Manhã redefine o acesso ao cuidado.

A unidade fluvial funcionará como ponto de atendimento ancorado no complexo portuário de Barcarena, oferecendo consultas em clínica geral e especialidades como pediatria, ginecologia, cardiologia, ortopedia e dermatologia, além de exames diagnósticos.

A estrutura permitirá a realização de ultrassonografia, radiologia e eletrocardiograma, ampliando o acesso a serviços ainda escassos em regiões mais vulneráveis.

Além da atuação fixa, o projeto prevê expedições para comunidades com maior dificuldade de acesso.

Para o diretor executivo hospitalar da Adventist Health Brasil, Jackson Freire, o projeto resgata a essência da atuação da instituição.

“O Estrela da Manhã é, antes de tudo, um sonho. Ele representa a continuação do trabalho iniciado pelos pioneiros por meio da Luzeiro. Podemos dizer que aquele barco foi o primeiro hospital da região. Hoje, ao levar novamente esse cuidado às águas, voltamos às origens da nossa missão.”

Continuidade da missão médico-missionária

Para o diretor-geral dos Hospitais Adventistas Belém e Barcarena, Ilvo Coutinho, o projeto conecta passado e presente.

“É uma forma de reconhecer o trabalho iniciado no passado e ampliar esse cuidado. Hoje conseguimos levar atendimento especializado para quem mais precisa.”

A história começou em 1931, com a Luzeiro I, criada pelos missionários Leo e Jessie Halliwell. O que era uma pequena embarcação se transformou, ao longo das décadas, em uma rede de assistência que hoje inclui hospitais, clínicas e ações sociais.

Agora, esse cuidado volta às águas.

 

Integração entre saúde e missão

O que move o projeto vai além da assistência clínica.

Para o diretor espiritual, Carlos Escopel, a missão exige proximidade.

“Muitos precisam de apoio, de acolhimento. Queremos promover uma saúde integral.”

Na mesma linha, o presidente da Igreja Adventista para a região Norte, André Dantas, amplia esse significado.

“Projetos como o Estrela da Manhã nos lembram o ministério de Cristo, que ia ao encontro das pessoas, muitas vezes por caminhos difíceis, levando cura, esperança e salvação. Quando chegamos até onde as pessoas estão, não apenas cuidamos do corpo, mas também levamos alívio e dignidade. É um trabalho que transforma quem recebe e também quem serve.”

 

Fortalecimento da rede de saúde na região

O lançamento do projeto acontece em um momento simbólico para o município.

Para a secretária de Saúde de Barcarena, Milvea Carneiro, a iniciativa representa impacto direto na vida da população.

“É uma política pública viva. Esses projetos ampliam o acesso, reduzem filas e levam atendimento especializado para quem mais precisa. O Hospital Adventista é um parceiro importante, que fortalece a saúde no município e garante mais qualidade no atendimento à população.”

Em cinco anos de atuação, o Hospital Adventista Barcarena já realizou mais de 183 mil atendimentos e se consolidou como referência em qualidade assistencial.

O movimento de expansão inclui ainda a Clínica Adventista Barcarena e o fortalecimento da atuação da Adventist Health Brasil, que já conta com unidade em Belém.

Nesse modelo, o cuidado deixa de ser pontual e passa a ser contínuo.

 

Impacto social e transformação no acesso à saúde

O que se constrói em Barcarena vai além de estruturas.

É um novo caminho para o acesso à saúde.

O Estrela da Manhã, a Clínica Adventista Barcarena e a atuação do Hospital Adventista Barcarena formam uma rede que se move na direção das pessoas.

Integradas à Adventist Health Brasil, essas iniciativas reafirmam um compromisso que atravessa gerações.

Um compromisso de servir, curar e salvar.

E, para famílias como a de seu José, isso significa algo simples — e transformador: ter o cuidado mais perto.

 

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