Cantora descobriu câncer de tireoide aos 19 anos sem apresentar sintomas

Às vésperas de lançar o primeiro álbum, Laura Morena precisou passar por cirurgia e ficou três meses sem cantar. No Julho Verde, especialista alerta para sinais persistentes e para a importância do diagnóstico precoce

15 de julho de 2026

Cantora gospel descobriu câncer na tiroide aos 19 anos. (Foto: Divulgação)

Laura Morena não sentia dor, não estava rouca e levava uma vida normal quando descobriu, aos 19 anos, que tinha câncer de tireoide. Naquele momento, a cantora havia acabado de gravar o primeiro álbum e se preparava para lançá-lo. O diagnóstico, porém, colocou em risco justamente seu principal instrumento de trabalho: a voz.

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A história havia começado quatro anos antes. Aos 15, Laura foi diagnosticada com tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune que afeta o funcionamento da tireoide. Como a mãe também havia apresentado alterações na glândula durante a gestação, a cantora passou a ser acompanhada por endocrinologistas.

Aos 19 anos, um nódulo chamou a atenção da médica, que recomendou uma punção. O resultado foi inconclusivo. Embora a idade e a ausência de sintomas pudessem favorecer apenas o acompanhamento, um dos médicos consultados sugeriu aprofundar a investigação.

“Ele me disse: ‘É como se você estivesse olhando para um leão. Pode ser que ele vá embora ou pode ser que ataque. O que você prefere fazer?’”, recorda Laura.

A única forma de chegar a uma resposta definitiva, naquele caso, seria retirar o nódulo e analisá-lo. A biópsia realizada durante a cirurgia confirmou o câncer.

O risco para a voz

A cirurgia ocorreu em 10 de novembro de 2009, mesmo período em que o primeiro álbum de Laura seria lançado. Pela proximidade da tireoide com estruturas responsáveis pela voz, o procedimento exigia atenção especial.

Para a cantora, o receio não se limitava ao diagnóstico. Havia também a possibilidade de alterações vocais após a operação.

Laura permaneceu duas semanas sem falar e três meses sem cantar. O lançamento do álbum precisou ser adiado por um ano enquanto ela se recuperava. Depois da cirurgia, passou a realizar acompanhamento periódico e não voltou a apresentar a doença.

“Se eu não tivesse investigado, talvez fosse descobrir 15 anos depois, já em outro quadro. O diagnóstico precoce realmente salva vidas”, afirma.

Mais de 42 mil casos por ano

A experiência da cantora ganha destaque durante o Julho Verde, campanha dedicada à conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço. O grupo reúne tumores que atingem regiões como boca, garganta, laringe, cavidade nasal, glândulas salivares e tireoide.

As projeções mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam, para cada ano entre 2026 e 2028, cerca de 17,2 mil novos casos de câncer da cavidade oral, 16,4 mil de tireoide e 8,5 mil de laringe. Somadas, apenas essas três localizações ultrapassam 42 mil diagnósticos anuais no país.

Segundo Gustavo Buscacio, coordenador de Oncologia do Hospital Adventista Silvestre (HAS), os carcinomas espinocelulares de boca, laringe e orofaringe estão entre os mais frequentes no Brasil. Esses tumores estão fortemente relacionados ao tabagismo, ao consumo de bebidas alcoólicas e, cada vez mais, à infecção pelo HPV.

Embora estejam agrupados pela região do corpo em que surgem, esses cânceres possuem características e fatores de risco diferentes. O câncer de tireoide, por exemplo, costuma se desenvolver silenciosamente e, na maioria das vezes, não provoca sintomas nas fases iniciais.

Um diagnóstico que ainda chega tarde

Um estudo conduzido pelo INCA, com mais de 145 mil casos registrados entre 2000 e 2017, mostrou que 78,2% dos tumores de cabeça e pescoço analisados foram diagnosticados nos estágios III ou IV. Na hipofaringe, o índice de casos avançados chegou a 91,3%; na orofaringe, a 86,6%.

Esse atraso pode tornar o tratamento mais complexo e comprometer funções como a fala, a voz e a capacidade de engolir.

“Quando o tumor é encontrado no início, as chances de cura podem superar 80%, com tratamentos mais simples e maior possibilidade de preservar essas funções”, explica Buscacio.

Entre os sinais que precisam ser investigados estão:

 

A recomendação é procurar avaliação médica quando alguma dessas alterações persistir por cerca de três semanas, especialmente entre pessoas que fumam ou consomem bebidas alcoólicas.

Quando o nódulo exige investigação

No câncer de tireoide, a doença costuma ser descoberta após a identificação de um nódulo no pescoço ou durante exames realizados por outra indicação. Nódulos endurecidos, fixos, com crescimento rápido ou acompanhados por linfonodos aumentados e rouquidão podem exigir uma análise mais aprofundada.

A avaliação combina o exame clínico com as características identificadas no ultrassom. Quando há elementos suspeitos, pode ser indicada a punção aspirativa por agulha fina.

Nem sempre, porém, o procedimento oferece uma resposta definitiva. Resultados indeterminados são classificados pelo sistema Bethesda, utilizado para analisar as células retiradas na punção. Nesses casos, a conduta depende do tamanho e das características do nódulo, da idade, do risco estimado de malignidade e das preferências do paciente.

“O médico pode acompanhar, repetir a punção, solicitar testes moleculares complementares ou indicar uma cirurgia diagnóstica quando o risco é mais elevado”, explica o coordenador.

A tireoidite de Hashimoto, condição apresentada por Laura, pode estar associada a um risco discretamente maior de câncer de tireoide. Isso não significa, no entanto, que todas as pessoas com a doença desenvolverão um tumor. A orientação é manter o acompanhamento médico, sem preocupação excessiva.

O histórico familiar também precisa ser comunicado ao profissional de saúde. Quando pai, mãe ou irmão tiveram câncer de tireoide, essa informação pode mudar a investigação e, em algumas situações, levar à indicação de testes genéticos.

Não existe “câncer bom”

O câncer de tireoide costuma ser chamado popularmente de “câncer bom” por apresentar altas taxas de cura. Para Buscacio, entretanto, a expressão deve ser evitada.

“A maioria dos casos tem ótimo prognóstico, com taxas de cura superiores a 95%. Mas chamar de ‘câncer bom’ pode transmitir a ideia perigosa de que o paciente pode relaxar”, afirma.

Existem formas mais agressivas da doença. O prognóstico depende do tipo e do tamanho do tumor, da idade do paciente e da presença ou não de disseminação para linfonodos ou outros órgãos. Por isso, cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Prevenção começa nas escolhas diárias

Não fumar, evitar bebidas alcoólicas, manter a vacinação contra o HPV atualizada, cuidar da saúde bucal e proteger do sol a pele do rosto, do pescoço e dos lábios estão entre as principais medidas preventivas. O INCA ressalta que, para a prevenção do câncer, não há quantidade segura de consumo de bebidas alcoólicas.

Para Laura, a experiência também mudou a maneira de perceber o próprio corpo. Hoje, ela procura não ignorar dores, inchaços ou alterações persistentes, mesmo quando parecem pequenas.

“É mais fácil enfrentar o medo do desconhecido do que ter de lidar com uma doença que avançou por causa desse medo”, diz. “Faça suas consultas e seus exames. Saber como está a nossa saúde traz paz.”

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